MM
17 de fevereiro de 2011
15 de fevereiro de 2011
CARNAVAL É SINÓNIMO DE INDISCIPLINA
Muito provavelmente já se aperceberam que o texto que antecede é, nada mais nada menos, que o assunto duma dança de carnaval de 1938, publicada no 2º. volume de AS DANÇAS DO ENTRUDO UMA FESTA DO POVO, de José Noronha Bretão, cuja autoria é atribuída, com alguma reserva, ao Francisco Duarte, natural dos Altares, muito embora eu não tenha dúvidas que efetivamente se trata desse autor.
Fiz questão de publicar este texto para o comentar, chamando a tenção para o facto das danças de espada, com dois mestres, que ao tempo, e até muito mais tarde, se faziam nos Altares eram compostas por uma terceira parte, que era claramente uma crítica de costumes, o que não me foi dado encontrar em danças feitas noutras localidades. Muito embora isso possa ter acontecido noutras freguesia, não era prática corrente, basta consultar outras danças escritas pelo mesmo Francisco Duarte para outras freguesias que não os Altares, o que prova que as danças de carnaval nunca tiveram manual, nem muito menos uma estrutura rígida que fixasse parâmetros dos quais não se podia fugir.
Vem isto a propósito de uns profetas da desgraça, iluminados por um deus menor, que se proclamam senhores da verdade e os únicos que sabem com linhas se cosem as danças e os bailinhos, quando afinal percebem disso tanto que por vezes na praticam até se negam a si próprios, e fazem-no por que as danças e agora também os bailnhos do Carnaval da Terceira sempre foram indisciplinados e sempre permitiram que cada um faça o que lhe der na real gana e, caso o público aceite, é só aperfeiçoar no ano seguinte ou partir para outra.
Não me venham cá com tretas, pois está mais que provado que este nosso carnaval que é talvez a festa mais indisciplinada do mundo, mas que funciona melhor que outros festivais, cuja organização ocupa muita gente e consome muitos milhares de euros.
Carnaval disciplinado é carnaval amordaçado.
6 de fevereiro de 2011
JÁ QUE O CARNAVAL SE APROXIMA…
1 de fevereiro de 2011
FRANCISCO FERREIRA DRUMOND
Francisco Ferreira Drummond nasceu na Vila de São Sebastião, 21 de janeiro de 1796, onde viria a falecer em 11 de setembro de 1858.
Foi um historiógrafo, paleógrafo, músico, organeiro e político com grande atividade cívica na vila de São Sebastião, na ilha Terceira, nos Açores.
O seu trabalho publicado ocupa um lugar de destaque na historiografia açoriana, sendo a base de boa parte das obras sobre a história dos Açores, em particular sobre a história da ilha Terceira.
Biografia
Filho de Tomé Ferreira Drumond, lavrador abastado, e sua esposa, Rita de Cássia, nasceu na casa de seus pais à rua da Igreja e foi batizado na Igreja Matriz da Vila de São Sebastião seis dias mais tarde, a 27 de janeiro de 1796.
A família Drumond estava então intimamente ligada ao magistério primário e à governança da Vila de São Sebastião, vindo a presidência da Câmara a ser ocupada por seu pai em 1821. O seu irmão, o Capitão de Ordenanças José Ferreira Drumond, dominou a vida política local durante v
Ferreira Drumond desde a infância revelou vocação para as letras e para a música, sob influência de seu tio paterno, o mestre-régio Francisco Machado Drummond.
Concluída a sua instrução primária, estudou Latim, Lógica e Retórica. As suas aptidões musicais, valeram-lhe a nomeação para o lugar de organista da Igreja Matriz da Praia da Vitória em 1811 (então com quinze anos de idade), cargo que ocupou até falecer. Complementarmente, trabalhou como organeiro, sendo chamado para manutenção e reparos desse tipo de instrumento em toda a ilha.
Tendo a vila de São Sebastião sido elevada a Concelho em 1822, foi eleito escrivão da Câmara Municipal. Nesse mesmo ano em que, segundo o novo sistema constituicional português, acedeu ao serviço público, aderiu ao liberalismo.
No ano seguinte, com a Vila-Francada em Portugal (1823), iniciam-se as perseguições políticas aos constitucionalistas, a que não ficou imune a Terceira. Francisco Ferreira, com outros, viu-se forçado a fugir, a 27 de julho, para a ilha de Santa Maria, depois para a ilha de São Miguel e de lá para a ilha da Madeira, terminando no continente, em Lisboa, onde esteve exilado por pouco mais de um ano. Com o fracasso da Abrilada (30 de abril de 1824), pode então retornar à Terceira, serenados os ânimos. Aqui participou ativamente das lutas da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834) nesta ilha, que posteriormente descreveu nos seus "Anais da Ilha Terceira".
Quando de sua volta à vila de São Sebastião, acedera ao cargo de escrivão dos órfãos, secretário da Administração do Concelho Municipal, e tabelião. Em 1836 foi eleito Presidente da autarquia, cargo que exerceu por três anos. No seu exercício destacou-se pela defesa dos interesses de autonomia do Concelho, em que acabou vencido. Garantiu, entretanto, a canalização de água potável para a vila com a sua captação das nascentes do Cabrito e o seu aproveitamento para moagem, à época a maior obra hidráulica da Terceira e uma das maiores dos Açores.
Em 1839 foi eleito Procurador à Junta Geral. Exerceu ainda, durante vários anos, o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
Faleceu aos 63 anos incompletos de idade, na casa que tinha aforado da Santa Casa da Misericórdia na Travessa da Misericórdia, na Vila de São Sebastião. No contexto das comemorações dos cinco séculos da chegada à Terceira dos primeiros povoadores, Ferreira Drumond foi homenageado pela Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, em 14 de outubro de 1951, com um pequeno monumento nessa rua.
A casa em que viveu foi recentemente adquirida pela Santa Casa da Misericórdia local, estando previsto o seu restauro e requalificação em biblioteca associada da rede de leitura pública.
Obra
Além da carreira como músico e homem público, exerceu intensa atividade como paleógrafo, investigador e historiador. Na visão de José Guilherme Reis Leite, foi o "primeiro historiador científico dos Açores".[1] A sua preocupação com as fontes documentais levou-o a lutar para recuperar os textos antigos que lhe garantissem informações credíveis para redigir a história do arquipélago. Francisco Ferreira filiava-se, nesse sentido, ao movimento que desde a segunda metade do século XVIII em Portugal, renovava os estudos históricos, nos quais se destacavam os nomes de António Caetano do Amaral, João Pedro Ribeiro, visconde de Santarém e Alexandre Herculano. O profundo conhecimento de paleografia valeu-lhe, em 1845, a contratação, pela Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, para transcrição dos livros góticos existentes nos arquivos daquela autarquia. Nesse mesmo ano, ofereceu à mesma autarquia o manuscrito dos "Anais da Ilha Terceira", com 1420 páginas e 510 documentos, redigido segundo o critério cronológico típico dos Anais, cobrindo o período desde a descoberta e povoamento da ilha até ao ano de 1832.
A Câmara Municipal de Angra publicou a obra em quatro volumes, vindo a público respetivamente em 1850, 1856, 1859 e 1864. Em 1981 a Secretaria Regional da Educação e Cultura publicou uma reimpressão fac-similada da edição de 1850.
Para além desta - considerada uma das obras de referência da historiografia açoriana - e de muitos artigos dispersos pela imprensa da época, teve as seguintes obras publicadas:
Memória Histórica da Capitania da Praia da Vitória — editado pela Câmara Municipal da Praia da Vitória em 1846, 56 pp., Praia da Vitória. A obra foi reeditada inserta na coletânea Memória Histórica do Horrível Terramoto de 15.VI.1841 que Assolou a Vila da Praia da Vitória, edição da Câmara Municipal da Praia da Vitória, 1983.
Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Eclesiásticos, para a História das Nove Ilhas dos Açores — obra inacabada deixada em manuscrito. Após um conturbado percurso, a obra foi editada em 1990 pelo Instituto Histórico da Ilha Terceira, com 648 páginas.
MM
26 de janeiro de 2011
INTERMEDIO, LA BODA DE LUIS ALONSO. J. GEMINEZ, LUCERO TENA
No clássico cabe tudo, do rock até às castanholas em concerto. Este conjunto está um mimo. Foi oferta dum amigo.
MM
MM
12 de janeiro de 2011
DESDE O DIA 1 QUE ME PERGUNTO: QUE FAZER COM ESTE ANO NOVO?
Pela parte que toca, sinto que vou olhar-te com um misto de indiferença e preocupação.
Tudo quanto me disseram nos meses que te antecederam, provocou em mim um estado de alma que tive muita dificuldade em aceitar o teu aparecimento. Porquanto, há ainda a agravante de me vires impingir as consequências de tantas coisas, que outros conduziram muito mal no passado, e que agora te impõem, que eu, e tantos como eu, que não fomos tidos nem achados para a criação do buraco negro que trazes no ventre, sejamos obrigados a suportar. Esta é uma situação que me irrita muito, ao mesmo tempo que me deixa incomodado e mal humorado, por não me terem perguntado se eu estava disponível para, voluntariamente, ajudar a pagar o rombo que alguns humanos, que de humanos não terão nada, possuidores de muito dinheiro e com projetos para conseguirem mais e mais, investindo o menos possível, embebidos ainda de requintes de uma desonestidade tal, que colocaram a vida em pantanas para quantos (e somos uma maioria) já andávamos a sentir alguma dificuldade em manter esta mania de honestidade, que infelizmente caracteriza os homens sérios.
MM
1 de janeiro de 2011
PARA QUÊ FESTEJAR O ANO NOVO?
IMAGEM DE SATÉLITE DO INSTITUTO DE METEOROLOGIA MOSTRA O FMI JÁ BEM PERTO DE PORTUGAL. A SUA APROXIMAÇÃO EVOLUIU DESFAVORAVELMENTE PARA NÓS NAS ÚLTIMAS HORAS
As doze badaladas da nossa meia-noite do dia 31 de dezembro, ou de outro dia qualquer, não significam, por imposição dos fusos horários, que todos estejamos no mesmo dia e naquele momento. Por isso, quando nós nos considerámos caídos em 2011, não se interroguem, sim caídos! Meditem bem, se nos dizem que este ano vai ser uma treta, só quem for tótó é que entra num ano destes de livre e expressa vontade.
Manda a tradição brindar com espumante e comer 12 passas de uva enquanto formulamos mentalmente os nossos desejos para o novo ano que entra. Mas para que gastámos nós, dinheiro que não tínhamos no espumante e nas passas, se o destino do ano já estava traçado? E foi traçado sem que nos perguntassem como gostaríamos do traçado?
Ano novo, vida nova. Isso era dantes. Agora será talvez ANO NOVO, MORTE CERTA.
Retomando a forma como iniciei esta reflexão, não seria melhor que mudássemos todos no mesmo momento de ANO? Já sei que vão perguntar, como? Não interessa se de dia ou de noite, era bonito mudarmos todos (mundo inteiro) de ano simultaneamente. Festejávamos juntos e, para além der ser uma festa de arromba, estávamos ocupados com os festejos, ao mesmo tempo.
Ora, deste modo, e já que o nosso futuro não é traçado por nós, mas sim por uns mafiosos que se escondem nos recantos mais controversos do planeta, mandando os seus capangas executar-nos financeiramente, enquanto dormimos. Pode muito bem que o tenham feito enquanto bebíamos o nosso espumante e comíamos as nossas passas?
Todos sabemos que tudo isto não se passa assim, mas se eles é que são os técnicos e se enganam uns aos outros e nós é que NOS lixamos, não podemos refletir sobre este estado de coisas senão de forma grosseira e com repulsa.
Apesar de tudo, BOM ANO!
MM
31 de dezembro de 2010
26 de dezembro de 2010
PRELÚDIO DE NATAL
Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas
História Antiga
Era uma vez, lá na Judeia, um rei. Feio bicho, de resto: Uma cara de burro sem cabresto E duas grandes tranças. A gente olhava, reparava e via Que naquela figura não havia Olhos de quem gosta de crianças. E, na verdade, assim acontecia. Porque um dia, O malvado, Só por ter o poder de quem é rei Por não ter coração, Sem mais nem menos, Mandou matar quantos eram pequenos Nas cidades e aldeias da nação. Mas, por acaso ou milagre, aconteceu Que, num burrinho pela areia fora, Fugiu Daquelas mãos de sangue um pequenito Que o vivo sol da vida acarinhou; E bastou Esse palmo de sonho Para encher este mundo de alegria; Para crescer, ser Deus; E meter no inferno o tal das tranças, Só porque ele não gostava de crianças. (Miguel Torga) |
Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas
António Gedeão
19 de dezembro de 2010
MUDOU O NATAL OU MUDÁMOS NÓS?
Quando eu era miúdo a vida e os tempos eram difíceis. Tenho ideia de que no Natal dava-se mais evidência ao aspeto religioso e às visitas ao “mijo” do menino. As prendas ou ofertas, como lhe queiram chamar, eram quase exclusivamente pelo “Pão por Deus”, aí tínhamos de certeza ofertas dos pais, dos avós, dos tios e dos padrinhos e alguns vizinhos.
A pouco e pouco, aos presépios foi-se adicionando a árvore de natal e a falar-se muito mais no pai natal. Muitos dos presépios desapareceram das casas, ficando a árvore de natal, que com a vinda da eletricidade era e é muito mais decorativa, sim porque é de decoração que se trata infelizmente, foi-se instituindo as ofertas pelo Natal, ato este que levou ao quase total desaparecimento das ofertas pelo “Pão por Deus”.
Depois de feitas estas transferências, nas calmas, foi só subir a parada e pressionar-nos com todos os meios disponíveis na economia de mercado. E, eis-nos neste infernal burburinho em que tudo se impinge, tudo se vende e tudo se quer comprar, no meio duma correria louca para não deixamos nada ao acaso, onde até as empresas que negoceiam com dinheiro nos vem seduzir, o pior é o depois.
Julgo que o que se passou com a economia mundial, (ocidental?) foi exatamente o que se passou com o natal (comercial), salvo as devidas distâncias e ampliada milhões de vezes.
Depois veem dizer-nos que se não compramos o comércio cai, a seguir podem cair as fábricas e vamos todos para o desemprego e lá temos o grande problema da economia.
Já reparam com certeza que os produtos (roupa e outros) que nos impingem pelo Natal, a 2 de janeiro do novo ano, estão com descontos de 30, 40, 50%. Por isso fica-nos a ideia de que pelo Natal, tempo da paz e do amor, andámos a ser explorados, de novo as leis do mercado a funcionar e a lixar-nos, e quando esses tais leis que gerem a economia falham, apesar de muitas vezes com os seus negócios nos terem lixado em nome do progresso, ainda somos nós que temos de apertar o cinto.
Urge mudar muita coisa, quer neste arraial de compras em nome do Natal, que nessa tal economia global em que muita gente se encheu e agora pagamos todos. Isto não se resolve acudindo aos famintos um mês por ano. A fome atua 365 dias por ano e 24 horas por dia. É por isso que tem de haver NATAL todo o ano e também na economia. Eu não sei como isso se reformula, e pelos vistos os entendidos também não, Deus tenha compaixão de nós.
Um Bom Natal para todos!
MM
13 de dezembro de 2010
3 de dezembro de 2010
9 de novembro de 2010
1 de novembro de 2010
OS CHAMADOS PRETOS DO MONTE BRASIL
Os retratos de Gungunhana feitos durante o período do exílio em Angra do Heroísmo são os de um homem só, amargurado com a derrota, remoendo em silêncio as memórias das suas muitas rainhas e do enorme tesouro que acumulou à custa de dádivas, impostos e saques. «Aos poucos, a vida vai nele arrefecendo, cansada de humidade, frio e céu cinzento», relata Maria da Conceição Vilhena em Gungunhana, Grandeza e Decadência de um Império Africano. «Os seus prolongados silêncios seriam sem dúvida o espaço de um amargo rememorar. Um ócio arrastado, sombrio, de desencantamento, que acelera o envelhecer. É o leão de Gaza transformado num cordeiro.» Muitos açorianos recordam hoje histórias familiares em que avós ou bisavós, ainda crianças, nutriam enorme ternura por Gungunhana, correndo para ele nas ruas da cidade e aninhando-se de um salto no seu braço vigoroso. O protagonista de algumas das histórias seria provavelmente Zixaxa, mais adaptado à terra – outros relatos nasceriam simplesmente na imaginação agridoce de quem temeu deparar-se um dia com «os pretos do Monte Brasil» e, depois, absolveu a sua presença na ilha.
Gungunhana morre a 23 de Dezembro de 1906, vítima de hemorragia cerebral, segundo consta das notícias dos jornais. É enterrado na véspera de Natal, numa cerimónia realizada segundo os princípios cristãos e a que assistiram os seus três companheiros de degredo. Quatro dias depois celebrar-se-ia o décimo primeiro aniversário da sua prisão. Mas tanta coisa acontecera entretanto... Em Portugal, Mouzinho de Albuquerque havia-se suicidado, a cidade do Porto resistira a uma peste bubónica, Lisboa assistia a espectáculos frequentes de cinema. Ao redor do mundo, as mulheres inglesas reclamavam direito de voto, os irmãos Wright haviam conseguido pôr no ar o Flyer I, Einstein inventara a Teoria da Relatividade. A morte de um pobre alcoólico, mesmo despojado de um império apenas suplantado em África pelo califado de Sokoto, era uma pobre efeméride.
Gungunhana «morreu sem uma simples homenagem», lamenta então o jornal Portugal, Madeira e Açores – outros jornais limitar-se-iam a notícias breves. No cemitério da Conceição, no extremo-norte da massa urbana de Angra do Heroísmo, os seus ossos ficariam na sepultura apenas enquanto esse espaço não fosse indispensável a outro defunto. O seu destino final, caso ninguém os reclamasse, seria a vala comum. O regresso a Moçambique, na altura ainda uma província ultramarina, não passaria de uma anedota ridícula.
Gungunhana
Chefe tribal poderoso e terceiro imperador dos Vátuas, Gungunhana nasceu em 1839, em Moçambique, e morreu em 1906, em Angra do Heroísmo. O seu reinado teve início em 1884.
Colocado perante a colonização europeia, Gungunhana pretendia prestar vassalagem a Portugal, mas a tirania que usava na relação com o seu povo levou a que o governo português pusesse fim às suas actividades cruéis. Travados vários combates, entre os quais os de Marracuene, Mongul e Coolela, Gungunhana foi derrotado pelas forças de Eduardo Galhardo e aprisionado em Chaimite pelo capitão Joaquim Mouzinho de Albuquerque, corria então o ano de 1895.
Trazido para Lisboa, Gungunhana não mais voltaria a território de Moçambique. Foi primeiramente encarcerado em Monsanto, de onde mais tarde, a 23 de Junho de 1896, foi transferido para Angra do Heroísmo. Aí aprendeu a ler e a escrever e foi convertido à força ao cristianismo e baptizado com o nome de Reynaldo Frederico Gugunhana.
A 23 de Dezembro de 1906, Gungunhana morreu, no hospital militar de Angra do Heroísmo, vítima de hemorragia cerebral.
A 15 de Junho de 1985, por ocasião do décimo aniversário da independência de Moçambique, os Presidentes Ramalho Eanes e Samora Machel aceitaram a transladação dos restos mortais do resistente colonial, Gungunhana (ou Ngungunhane), para a Fortaleza de Maputo.
Ngungunhane (1850-1906), ou Gungunhana, (sentado à esquerda) com seu filho Godide (em pé, à direita, com a mão no ombro do pai), Molungo (sentado, à direita de Godide ) e Zixaxa (de pé à direita). Foto tirada em Angra do Heroísmo, Açores (Abril, 1899).
29 de outubro de 2010
DE NOVO EM ANGRA
Depois de ter estreado, no Teatro Angrense, no passado dia 16 de Abril, de novo em Angra, mas desta feita, na sede do Alpendre, que vem abrindo as portas ao Pedra-mó - grupo de teatro - no Outono.
O Valentão do Mundo Ocidental
Uma Comédia de John Millington Synge
SINOPSE
O Valentão do Mundo Ocidental é a obra-prima de Synge, a peça que lhe trouxe fama internacional. Ao fazer com que Christy Mahon, o Valentão, acredite que matou o pai, ainda que tal não tenha acontecido, Synge explora as possibilidades cómicas do tema edipiano que envolvem tanto o parricídio como o incesto. Esta comédia esplêndida e extravagante adquire ressonâncias trágicas quando Synge, mais uma vez, faz contrastar o mundo do sonho ou da ilusão (o mundo do Valentão) com o mundo da realidade crua que não pode ser redimida pela imaginação (o mundo dos camponeses). Quando a peça foi apresentada pela primeira vez no Teatro da Abadia, em Dublin, o público provocou um tumulto, chocado com a violência da acção e com a imagem da Irlanda que ela veiculava.
MM
A BEM DA NAÇÃO, DESPACHEM-SE
Com esta imagem de 1892, em que o Rafael Bordalo Pinheiro tenta mostrar como todos estavam preocupados com o estado do pais, para em roda pé afirmar que todos o veem pelos olhos do Mestre Zé Dias. Eu, que tenho brincado um pouco com esta situação, já começo a ficar preocupado, não ainda com as consequências do orçamento, mas sim com a forma como a opinião pública está a ser bombardeada com imensas e variadas opiniões, muitas delas parecendo grandes disparates. Se, naquele tempo, só o mestre Zé Dias tinhas olhos para o estado da nação, o que não era nada plural, pelo contrário, hoje, são tantos os que se perfilam a comentar a situação, que, apesar de podermos escutar inúmero pontos de vista, estamos a ficar intoxicados ou traumatizados ao ponto de, mesmo que tenhamos orçamento, já não teremos cabeça para o aturar. Por outro lado, os que estão com as mãos no orçamento, ou seja os partidos políticos, formam dois blocos distintos, um composto pelos partidos que são contra todos os orçamentos e logicamente seriam contra este, a declararem frontalmente que vão votar contra e os restantes que só nos dizem meias coisas e já nos estão a enervar ao ponto desejarmos, 24 horas por dia, que houvesse eleições.
A bem da Nação, deixem passar a expressão, despachem-se em favor do interesse nacional e deixem de pensar no jogo partidário. Nem ao fundo do túnel se houve falar de ideologias, então o que os impede de colocarem os interesses nacionais à frente de tudo?
Às vezes ficamos com a ideia de que os partidos só pensam no interesse nacional nas campanhas eleitorais, se pensam!
MM
26 de outubro de 2010
DESPIR O POVO
Para que conste e também para nosso consolo, não foi só no século XXI que o povo teve de "largar a casca".
MM
21 de outubro de 2010
O GOVERNO EM SALDO
para ler melhor carregue na imagem
Cuidado, não se apressem que este saldo já foi em 1879.
Embora não possamos ir aos saldos podemos estabelecer comparações.
in, O António Maria, 12 de Junho de 1879.
MM
IMAGINEM, CENAS PARLAMENTARES.... MAS, DE 1879
Ressalvando as devidas distâncias, adicionando todas as inflações declaradas e encapotadas, sem esquecer a evolução da comunicação social, ocorre a pergunta: Será consequência daquela crise, esta que atravessamos?
Talvez não, ou talvez sim!
Convém refletir!
MM
16 de outubro de 2010
9 de outubro de 2010
7 de outubro de 2010
AS OITO BANDEIRAS PROPOSTAS PARA A REPÚBLICA
Proclamada a república, decide-se que, ainda em 1910, deveriam existir os novos símbolos. Instalou-se uma forte polémica, entre outros Guerra Junqueiro, apesar de ser republicano, defendia que a nova bandeira devia ter por base, tal como na monarquia, as cores azul e branco, dizendo que «a bandeira vermelha e verde é uma bandeira de pretos». A comissão nomeada para escolher a nova bandeira a adotar fez a escolha que todos conhecemos, porém, e aqui para nós, que ninguém nos ouve, os proponentes não tiveram a sorte de ser tocados pela inspiração, porque, bem vistas as coisas, decidido que estava não ser azul e branco, à comissão não foi difícil escolher. Para pretos e para brancos, a verde e vermelha é a mais harmoniosa, e, provavelmente, também a azul e branca do cimo, se tivesse a esfera armilar sob o escudo, tal como foi proposta é deselegante, o resto é tudo simplesmente horroroso.
MM
6 de outubro de 2010
COMEMORAÇÕES DO 8Oº. ANIVERSÁRIO DO 1º. VOO AÉREO NOS AÇORES A PARTIR DE TERRA
Pelas 18H00, de 2ª. Feira, 4 de outubro de 2010, tal como estava programado, no Núcleo Museológico dos Altares, a Junta de Freguesia dos Altares e o Núcleo Filatélico de Angra do Heroísmo, - agora renascido - acharam por bem, - e eu reforço, e muito bem - assinalar esta data incontornável na história da aviação portuguesa, feito este ocorrido nos Açores, ao inaugurar neste mesmo dia, mas do ano de 1930, o aeródromo da Achada, o qual foi uma vitória aérea e terrestre, dado que, muitas pressões estranhas à Ilha Terceira, tentaram que este não acontecesse aqui, quer no tempo, quer geograficamente.
Daí, da Achada, levantou pelas mãos do altarense Frederico Coelho de Melo, na altura com a patente militar de tenente, o Açor, já aqui identificado, o qual para além de projetar o espaço aéreo dos Açores na senda da aviação mundial, veio pôr de rasto a teoria que corria o mundo, fazendo crer serem os Açores um cemitério de aviões.
Mas passando aos acontecimentos, o programa constava do seguinte: A Junta de Freguesia doa Altares levou a cabo uma sessão solene de homenagem à data, ao acontecimento e ao altarense que a ela ficou ligado para sempre. Neste espaço já apresentámos documentos que são a prova inequívoca disso. Após a Sessão Solene, o Núcleo Filatélico de Angra de Angra do Heroísmo com o apoio dos CTT de Angra do Heroísmo fez o lançamento de dois selos evocativos da data; um deles mostra-nos o homem (FREDERICO DE MELO), o outro a máquina (O AÇOR), Falaram nesta Sessão o Sr. Presidente da Junta de Freguesia dos Altares, Salvador da Rocha Lopes, um representante do Núcleo Filatélico, o Sr. João Garcia e por último o Vereador Cota Rodrigues em representação da Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.
Não é nossa intenção fazer qualquer juízo sobre o que nos foi dito por nenhum dos oradores, excecionalmente gostaria de fazer uma referência à intervenção do Sr. João Garcia, altarense residente na Califórnia, nos Estados Unidos e que através de sua esposa, está ligado familiarmente ao Capitão Frederico de Melo, dado que ela era sobrinha (filha) – permitam-me este aparte, pois ela vivia com homenageado como se tal fosse, situação esta que deu oportunidade ao amigo João Garcia de partilhar connosco uma grande parte do que o Capitão Frederico Coelho de Melo lhe transmitiu, não isenta de alguma comoção, comoção essa que deu ao momento muita autenticidade.
Por fim foi chamada a presidente da Assembleia de Freguesia dos Altares para obliterar o primeiro conjunto dos Selos Comemorativos.
Deste ato, para além da justa e merecida homenagem, ficou provado, se é que já não o estava, que naquela data distante de 1930, havia gente, que, pensando como o Capitão Frederico Coelho de Melo, previam que para os Açores, em termos aéreos, estava reservado um grande futuro. E a prová-lo está o panfleto, cujo texto abaixo reproduzimos, que foi lançado sobre a populações da Ilha Terceira naquele dia.
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| texto escrito usando a nova ortografia e no qual foram incluídos dados provenientes da pesquisa feita por Alcino Meneses e distribuídos na Sessão Solene. MM |
30 de setembro de 2010
Os pioneiros da aviação na História dos Açores…
Em vésperas das comemorações do 80º. Aniversário do 1º. Voo Aéreo realizado nos Açores a partir de terra, mais concretamente do também primeiro aeródromo dos Açores, na Achada Ilha Terceira, transcrevemos, com a devida vénia do Correio dos Açores.
"O presente artigo já pecava pelo atraso. Planeado para comemorar os 92 anos do primeiro voo nos Açores, foi sucessivamente adiado por diversas razões. Em todo o caso, fez em Fevereiro passado 92 anos em que pela primeira vez levantou (e se observou) um avião nas ilhas dos Açores.
Efectivamente, no dia 23 de Fevereiro de 1918 levantaria voo junto ao forte de São Brás o primeiro avião americano da base aeronaval implantada em Ponta Delgada no final da Grande Guerra (ou da I Guerra Mundial como é vulgarmente conhecida). Constituída em finais de 1917 e Janeiro de 1918, esta base estrangeira em solo nacional seria o clímax de uma situação que desde 1914 tendia a agonizar-se nos mares açorianos, em grande parte provocada pelo desaparecimento dos grandes navios de guerra de superfície ingleses, arrastando (e afundando consigo) todo o comércio das ilhas em virtude do progressivo aumento da actividade dos U-boats alemães nas imediações.
Fácil se tornaria encontrar um exemplo, entre vários, de uma guerra mundial complexa para os açorianos. Este progressivo crescimento da actividade submarina alemã junto às ilhas teria o seu culminar no ataque do Deutchland a Ponta Delgada, a 4 de Julho de 1917, do qual haveria de resultar a morte de uma jovem e o afastamento da unidade naval alemã mediante a forte oposição da artilharia americana a bordo do navio carvoeiro Orion (embora apoiado pela artilharia portuguesa, que foi ineficaz, por estar mal posicionada).
A forma como a defesa das ilhas seria encarada após este evento, seria diferente, quer pelas autoridades nacionais, quer pelas estrangeiras. Dentro deste novo espírito, e como resposta a uma serie de directivas aliadas no Atlântico, a que as comunicações não são alheias, os EUA acabariam por vir para a maior cidade do arquipélago com 150 fuzileiros, duas peças de artilharia de costa, navios e patrulhas costeiras, submarinos e hidroaviões.
O Coronel Afonso Chaves chegaria a fotografar estas aeronaves. Contudo a fotografia a preto e branco tem as suas limitações. Sobre estas máquinas voadoras que encantaram todos aqueles que as desconheciam (ou mesmo aqueles que as já tinham visto por intermédio do cinematógrafo) pouco se sabe.
No dia em que o primeiro grande hidroavião Curtiss HS-2L descolou da baia do porto de Ponta Delgada, a cidade susteve a respiração. Pela primeira vez via-se uma máquina humana a imitar o voo dos pássaros, apesar do seu barulho sui generis.
A partir dessa altura, a agitação da urbe iria tornar-se típica de uma grande base naval, com muitos soldados portugueses e americanos a circularem pelas ruas; muitas viaturas militares americanas a apitarem para desimpedirem caminho e monoplanos ou biplanos estrelados de vermelho e branco a voarem por cima da população.
A sua missão estava essencialmente ligada ao patrulhamento marítimo, sendo rotineira a ida e volta a Vila Franca do Campo. A autonomia destes aviões era ainda muito curta, rondando os 600 km. Em todo o caso, das suas missões será de destacar a primeira filmagem da costa Sul da ilha de São Miguel (desaparecida) e projectada duas vezes no recentíssimo (ao tempo) Coliseu Micaelense, em festas de angariação de fundos para a Cruz Vermelha Portuguesa.
Terminada a guerra, a base seria desactivada, ainda a tempo de prestar apoio à travessia do hidroavião NC 4 em Maio de 1919, que é recebido em apoteose pelos micaelenses. O amigo americano, que havia defendido a cidade em 1917, e ajudado os micaelenses (e não só) ao longo de 1918, voltara a praticar outro grande feito.
De facto já se aguardava esta travessia do Oceano Atlântico desde 1914. Na época, a única dúvida para um dos órgãos de comunicação social micaelense, seria se o América (provavelmente um Curtiss H - América) amararia ou aterraria. Contudo o seu feito tardou por problemas técnicos, apesar da alta recompensa em jogo. Esta inovação tecnológica havia de ser rapidamente aperfeiçoada durante a Grande Guerra, tornando-se num dos muitos factores de mudança que caracterizam aquela que seria descrita como a mãe de todas as guerras.
Como ilhas dispersas no meio do Atlântico, a notícia de uma máquina que voava, aproximando terras remotas, revelara-se desde de inicio como um tema apaixonante. Numa região de pequenos trilhos em terra, em que nem todos conheciam os locais mais exóticos, mesma da sua freguesia, a ideia de uma máquina que em horas atravessaria o vasto oceano ligando dois continentes, apresentava-se como algo deslumbrante.
Contudo, a nível nacional também se estavam a dar os primeiros passos na aviação portuguesa: em Maio de 1914 surge a Escola de Aeronáutica Militar e em 1915 seria feito o concurso para a entrada de dez militares do Exército ou da Marinha (uma vez que havia uma secção naval), para formação numa escola de aviação estrangeira. Já em beligerância, Portugal teve que adquirir rapidamente algum material e pessoal especializado. Dentro deste espírito, em Outubro de 1916 entraria em funcionamento, sendo Artur de Sacadura Freire Cabral, oficial da Marinha de Guerra Portuguesa, seu director. Sacadura Cabral fazia parte do núcleo dos pioneiros da aviação portuguesa, formados em escolas estrangeiras, sendo camarada do capitão Francisco Xavier da Cunha Aragão, o «herói de Naulila», que de acordo com um órgão de comunicação social micaelense tinha raízes no Nordeste. O orgulho sentido neste filho da terra leva a que o mesmo jornal destacasse a sua chegada aos EUA em finais de 1915, referindo-se em 1 de Janeiro de 1916, que se encontrava em Nova York para aprofundar os seus conhecimentos por intermédio da aviação americana
Com o evoluir da guerra, nas frequentes crónicas da front são comuns os relatos da aviação no campo batalha, em especial dos apaixonantes combates aéreos (reproduzidos de acordo com a prosa da época nos órgãos de comunicação social) ou mesmo as fantásticas travessias aéreas (em que sucessivamente se batiam novos recordes), cuja incerteza pela vida era uma constante.
Se sobre Francisco Xavier da Cunha Aragão ainda poderá haver alguma dúvida sobre a sua naturalidade, sobre o tenente Adolfo Trindade não há. Trata-se de um dos pioneiros da aviação portuguesa, faialense de raiz e piloto pelo primeiro curso de pilotagem em Portugal.
Oficial da Marinha de Guerra portuguesa, havia aperfeiçoado os seus conhecimentos com uma série de cursos no estrangeiro até ser chamado em meados de Junho de 1918, à ilha de São Miguel para ser o comandante de uma possível base naval portuguesa nos Açores. Esta base acabaria por não passar do papel, apesar de ainda terem sido feitas algumas diligências para a sua instalação.
Uma vez ultrapassada a hecatombe que se lançou sobre a Europa entre 1914 e 1918, e superada a difícil tarefa da travessia aérea do Atlântico Norte, os anos de 1920 e de 1930 haveriam de se revelar como importantíssimos na história da aviação mundial, com reflexos em ambas as margens do oceano e claro está, na posição geoestratégica das ilhas.
Pelas ilhas haveriam de passar então Charles Lindbergh; o marquês Francesco De Pinedo e o seu Santa Maria II; a primeira mulher a voar no Atlântico, a austríaca Lilly Dillenz e o seu Junkers D 1230; miss Ruth Elder, que entretanto havia perdido o seu American Girl; a esquadrilha dos lindíssimos Savoia-Marchetti s.55 de Ítalo Balbo e Frank Courtney com o seu Dornier Do J Wal, para não deixar de mencionar máquinas fantásticas como o DOX, o Zephir da Deutsche Luftansa do III Reich e claro está, o Graf Zepellin.
Incontornável será a referência ao primeiro aeroporto nas ilhas, nomeadamente o campo da Achada na ilha Terceira, e a ascensão aos céus açorianos da primeira aeronave terrestre por cá, o Avro 504 K, baptizado Açor, com outro pioneiro da aviação açoriana aos comandos, o tenente Frederico Coelho de Melo, natural dos Altares, isto a 4 de Outubro de 1930.
Ainda mais importante do que a passagem destes vultos e máquinas dos pioneiros da aviação, uns com mais sucesso, outros com menos, seria o resultado final de uma série de ilações retiradas destes voos e que permitiriam o estabelecimento das primeiras rotas comerciais transoceânicas, como por exemplo para a Pan American Airways e os seus Yankee Clipper durante a II Guerra Mundial, assim como para a Air France e Imperial Airways.
Desta forma torna-se relativamente simples perceber que a história dos pioneiros da aviação nos Açores ainda tem muitas páginas para contar. Por exemplo, será de realçar a tentativa fracassada de estabelecer um recorde português da travessia Lisboa-Funchal-Ponta Delgada a bordo de um Fokker T. III W, o Infante de Sagres, em Março de 1926, lograda a poucas milhas de Ponta Delgada.
Os Fokkers T III W haviam vindo para Portugal no âmbito de um ousado projecto para realizar uma viagem aérea à volta do mundo no sentido inverso ao percurso de Fernão Magalhães (isto já no rescaldo do sucesso da travessia aérea do Atlântico Sul em 1922). Contudo, a sina a que ficariam associados começaria logo a 1 de Novembro de 1924: Sacadura Cabral desapareceria no mar do norte, apenas se encontrando um flutuador da sua robusta aeronave. O Infante de Sagres, teria sina similar, embora menos funesta. Ao levantar de Lisboa a 20 de Abril de 1926, teve o primeiro contratempo perto de um enevoado Funchal, acabando por amarrar em virtude de sobreaquecimento. Os seus dois pilotos da Aeronáutica Naval seriam encontrados no dia a seguir, por um barco de pesca, a 13 km do destino. Uma vez rectificada a avaria e ultrapassadas as burocracias, ascenderiam novamente aos céus a 9 de Maio, procurando retomar a tentativa de recorde, cujo vértice seguinte seria Ponta Delgada. Acabariam por novamente serem forçados a amarar em Vila Franca do Campo, por falta de combustível. Uma vez em Ponta Delgada, com a aeronave assente no varadouro do Corpo Santo (ao lado do forte de São Brás), os pilotos acabariam por regressar a Lisboa por ordem superior de barco, bem como o avião, às peças.
Outro episódio digno de referência será a estadia em Ponta Delgada de uma esquadrilha francesa de Breguet-bisert pertencentes à 1ª Esquadra Ligeira do Atlântico. Os quatro trimotores de reconhecimento aéreo franceses amararam ao porto da cidade micaelense às 14 horas de 19 de Maio de 1938, ou seja há 72 anos. A amaragem, à boa maneira do elevado gosto da época não seria feita de forma regular. Várias manobras seriam feitas para encanto da população e o último amararia mesmo em sentido contrário (Leste-Oeste), numa manobra arriscada no interior da baia do porto micaelense.
Faziam parte de uma esquadra francesa em manobras no Atlântico (e aproveitariam a ilha para concretizar algumas, junto à Bretanha), e pelos registos da época tinham dez homens de tripulação, pesavam dezoito toneladas, recebendo cada 2. 000 litros de combustível da firma micaelense J. H. Ornelas, ao tempo agente da Shell para os Açores.
A esquadra chegaria no dia seguinte, salvando terra a tiros de artilharia logo pela manhã e que seriam correspondidos pelo forte de São Brás, ainda hoje em dia responsável por esta centenária forma de saudação a embarcações estrangeiras. Ao contrário das aeronaves, que tinham vindo de Cherburgo, via Best e Lisboa, as onze unidades de superfície da Marinha de Guerra francesa haviam feito um desvio, passando pelo Funchal.
Entre a calorosa recepção, destacam-se os fervorosos jantares de ambas as partes, os passeios às Sete Cidades e Furnas com as autoridades civis e militares locais, e claro está, os empolgantes jogos de futebol entre os locais e os estrangeiros. Contudo, a visita desta esquadrilha poderá estar associada aos estudos pioneiros da grande aviação transoceânica, uma vez que por detrás destas aeronaves (que conheceriam diferentes versões) encontrava-se o fundador da Air France. Uma vez em Ponta Delgada, sairia uma aeronave rumo à Horta e uma segunda a Angra do Heroísmo.
Nesse mesmo ano, nova visita seria feita a Ponta Delgada, mas por uma divisão da Marinha de Guerra portuguesa, comandada por um notável filho da terra, o Capitão de Mar e Guerra Alfredo Botelho de Sousa, a comandar o Bartolomeu Dias (navio – chefe) e os destroyers Douro, Tejo, Lima e Dão, os submarinos Espadarte e Golfinho, e o aviso João de Lisboa.
Nesta fase, Portugal tinha duas embarcações com sistemas embrionários, típicos nos estudos desenvolvidos desde o fim da Grande Guerra, e que haveria de desembocar no desenvolvimento dos porta-aviões. São chamados de sistemas de catapulta, que catapultavam aviões a bordo das embarcações com vista a uma maior operacionalidade e diversidade nas operações. Uma destas embarcações era o Bartolomeu Dias, que tinha a bordo um Hawker Osprey III, rapidamente posto a sobrevoar Ponta Delgada.
Estes hidroaviões, integrados na Armada Naval em 1935 foram os únicos aviões embarcados da Armada portuguesa. Seriam rapidamente substituídos a bordo por canhões anti – aéreos e destacados para Macau onde serviram até 1941. As fotos aqui apresentadas poderão ser únicas no que concerne à sua actividade, uma vez que existem sites oficiais que negam a sua existência a bordo do Afonso de Albuquerque e do Bartolomeu Dias.
A sua presença a bordo é plenamente registada pelo Correio dos Açores, para além das suas ousadas manobras sobre a cidade e as suas duas descidas na Lagoa das Sete Cidades, uma das vezes, em ambas, para delírio de locais que ocorreram de barco a cumprimentar os pilotos navais.
Seriam o culminar de pouco mais de duas décadas de pioneirismo, aventura (com ou sem rádio, peça fulcral caso a missão corresse mal) e euforia de homens e máquinas. São igualmente duas décadas de autêntica “revolução” industrial na produção de aeronaves: de madeira e tela, passara-se a aviões com estrutura e revestidos a metal; de cabines descobertas a cobertas; de velocidades e raios de alcance autonomias na ordem dos 145 Km/h e 402 Km do Avro 504 K, para os 602 Km e 760 Km do Supermarine Spitfire Mk Vb ao inicio da II Guerra Mundial (neste caso um caça. Num bombardeiro famoso como o Consolidated B-24 Libereator, o raio de alcance atingia os 4.585 Km).
A expressão máxima da aviação nos Açores durante a II Guerra Mundial seria a criação de dois aeródromos em São Miguel e Terceira, a que se seguiria um em Santa Maria ainda antes do final da hecatombe. Ainda tutelados pela aviação do Exército Português, em articulação com as forças estrangeiras (nos dois primeiros casos), teriam uma unidade equivalente mas da Aeronáutica Naval no Centro de Aviação Naval de Ponta Delgada, sediado no desaparecido hangar da marinha junto ao forte de São Brás. À semelhança da guerra anterior, e ao espaço entre ambas, o antigo areal que outrora fora o porto da cidade, voltava a receber aeronaves com flutuadores, desta vez da Marinha de Guerra portuguesa.
Deste modo, os açorianos (em especial destas duas ilhas) rapidamente se habituaram aos voos dos aviões Gladiator do Exército, mais tarde reforçados pelos Junkers 52, e os hidroaviões da Marinha, os Grumman G-21-B e G-44 (com rodas incorporadas) e Avros 626, responsáveis pelo primeiro levantamento aerofotográfico das ilhas.
Contudo, a segurança e operacionalidade por eles representada não seriam isenta de riscos: o Exército perderia pelo menos dois pilotos e a Marinha um, entre duas aeronaves destruídas pelo rebelde mar açoriano.
Novamente se constata o papel importantíssimo das ilhas na História das comunicações do Atlântico Norte. Futuros trabalhos que irei desenvolver, trarão mais motivos para comprová-lo (neste e em outros capítulos), uma vez que existe sem dúvida uma historiografia açoriana, razão mais do que óbvia para os nossos alunos terem uma disciplina intitulada História dos Açores. Quando tanto se fala que um dos pilares futuros da economia açoriana reside no Turismo: então não temos que nos conhecer a nós próprios, para nos valorizarmos e nos destacarmos pela diferença? Como o iremos fazer, se os nossos alunos estudam a basílica de São Pedro em Roma (e bem) mas não a igreja de São Pedro em Ponta Delgada? Já Miguel Torga dizia: “Temos que conhecer a nossa terra, mas conhece-la por dentro...”."
Efectivamente, no dia 23 de Fevereiro de 1918 levantaria voo junto ao forte de São Brás o primeiro avião americano da base aeronaval implantada em Ponta Delgada no final da Grande Guerra (ou da I Guerra Mundial como é vulgarmente conhecida). Constituída em finais de 1917 e Janeiro de 1918, esta base estrangeira em solo nacional seria o clímax de uma situação que desde 1914 tendia a agonizar-se nos mares açorianos, em grande parte provocada pelo desaparecimento dos grandes navios de guerra de superfície ingleses, arrastando (e afundando consigo) todo o comércio das ilhas em virtude do progressivo aumento da actividade dos U-boats alemães nas imediações.
Fácil se tornaria encontrar um exemplo, entre vários, de uma guerra mundial complexa para os açorianos. Este progressivo crescimento da actividade submarina alemã junto às ilhas teria o seu culminar no ataque do Deutchland a Ponta Delgada, a 4 de Julho de 1917, do qual haveria de resultar a morte de uma jovem e o afastamento da unidade naval alemã mediante a forte oposição da artilharia americana a bordo do navio carvoeiro Orion (embora apoiado pela artilharia portuguesa, que foi ineficaz, por estar mal posicionada).
A forma como a defesa das ilhas seria encarada após este evento, seria diferente, quer pelas autoridades nacionais, quer pelas estrangeiras. Dentro deste novo espírito, e como resposta a uma serie de directivas aliadas no Atlântico, a que as comunicações não são alheias, os EUA acabariam por vir para a maior cidade do arquipélago com 150 fuzileiros, duas peças de artilharia de costa, navios e patrulhas costeiras, submarinos e hidroaviões.
O Coronel Afonso Chaves chegaria a fotografar estas aeronaves. Contudo a fotografia a preto e branco tem as suas limitações. Sobre estas máquinas voadoras que encantaram todos aqueles que as desconheciam (ou mesmo aqueles que as já tinham visto por intermédio do cinematógrafo) pouco se sabe.
No dia em que o primeiro grande hidroavião Curtiss HS-2L descolou da baia do porto de Ponta Delgada, a cidade susteve a respiração. Pela primeira vez via-se uma máquina humana a imitar o voo dos pássaros, apesar do seu barulho sui generis.
A partir dessa altura, a agitação da urbe iria tornar-se típica de uma grande base naval, com muitos soldados portugueses e americanos a circularem pelas ruas; muitas viaturas militares americanas a apitarem para desimpedirem caminho e monoplanos ou biplanos estrelados de vermelho e branco a voarem por cima da população.
A sua missão estava essencialmente ligada ao patrulhamento marítimo, sendo rotineira a ida e volta a Vila Franca do Campo. A autonomia destes aviões era ainda muito curta, rondando os 600 km. Em todo o caso, das suas missões será de destacar a primeira filmagem da costa Sul da ilha de São Miguel (desaparecida) e projectada duas vezes no recentíssimo (ao tempo) Coliseu Micaelense, em festas de angariação de fundos para a Cruz Vermelha Portuguesa.
Terminada a guerra, a base seria desactivada, ainda a tempo de prestar apoio à travessia do hidroavião NC 4 em Maio de 1919, que é recebido em apoteose pelos micaelenses. O amigo americano, que havia defendido a cidade em 1917, e ajudado os micaelenses (e não só) ao longo de 1918, voltara a praticar outro grande feito.
De facto já se aguardava esta travessia do Oceano Atlântico desde 1914. Na época, a única dúvida para um dos órgãos de comunicação social micaelense, seria se o América (provavelmente um Curtiss H - América) amararia ou aterraria. Contudo o seu feito tardou por problemas técnicos, apesar da alta recompensa em jogo. Esta inovação tecnológica havia de ser rapidamente aperfeiçoada durante a Grande Guerra, tornando-se num dos muitos factores de mudança que caracterizam aquela que seria descrita como a mãe de todas as guerras.
Como ilhas dispersas no meio do Atlântico, a notícia de uma máquina que voava, aproximando terras remotas, revelara-se desde de inicio como um tema apaixonante. Numa região de pequenos trilhos em terra, em que nem todos conheciam os locais mais exóticos, mesma da sua freguesia, a ideia de uma máquina que em horas atravessaria o vasto oceano ligando dois continentes, apresentava-se como algo deslumbrante.
Contudo, a nível nacional também se estavam a dar os primeiros passos na aviação portuguesa: em Maio de 1914 surge a Escola de Aeronáutica Militar e em 1915 seria feito o concurso para a entrada de dez militares do Exército ou da Marinha (uma vez que havia uma secção naval), para formação numa escola de aviação estrangeira. Já em beligerância, Portugal teve que adquirir rapidamente algum material e pessoal especializado. Dentro deste espírito, em Outubro de 1916 entraria em funcionamento, sendo Artur de Sacadura Freire Cabral, oficial da Marinha de Guerra Portuguesa, seu director. Sacadura Cabral fazia parte do núcleo dos pioneiros da aviação portuguesa, formados em escolas estrangeiras, sendo camarada do capitão Francisco Xavier da Cunha Aragão, o «herói de Naulila», que de acordo com um órgão de comunicação social micaelense tinha raízes no Nordeste. O orgulho sentido neste filho da terra leva a que o mesmo jornal destacasse a sua chegada aos EUA em finais de 1915, referindo-se em 1 de Janeiro de 1916, que se encontrava em Nova York para aprofundar os seus conhecimentos por intermédio da aviação americana
Com o evoluir da guerra, nas frequentes crónicas da front são comuns os relatos da aviação no campo batalha, em especial dos apaixonantes combates aéreos (reproduzidos de acordo com a prosa da época nos órgãos de comunicação social) ou mesmo as fantásticas travessias aéreas (em que sucessivamente se batiam novos recordes), cuja incerteza pela vida era uma constante.
Se sobre Francisco Xavier da Cunha Aragão ainda poderá haver alguma dúvida sobre a sua naturalidade, sobre o tenente Adolfo Trindade não há. Trata-se de um dos pioneiros da aviação portuguesa, faialense de raiz e piloto pelo primeiro curso de pilotagem em Portugal.
Oficial da Marinha de Guerra portuguesa, havia aperfeiçoado os seus conhecimentos com uma série de cursos no estrangeiro até ser chamado em meados de Junho de 1918, à ilha de São Miguel para ser o comandante de uma possível base naval portuguesa nos Açores. Esta base acabaria por não passar do papel, apesar de ainda terem sido feitas algumas diligências para a sua instalação.
Uma vez ultrapassada a hecatombe que se lançou sobre a Europa entre 1914 e 1918, e superada a difícil tarefa da travessia aérea do Atlântico Norte, os anos de 1920 e de 1930 haveriam de se revelar como importantíssimos na história da aviação mundial, com reflexos em ambas as margens do oceano e claro está, na posição geoestratégica das ilhas.
Pelas ilhas haveriam de passar então Charles Lindbergh; o marquês Francesco De Pinedo e o seu Santa Maria II; a primeira mulher a voar no Atlântico, a austríaca Lilly Dillenz e o seu Junkers D 1230; miss Ruth Elder, que entretanto havia perdido o seu American Girl; a esquadrilha dos lindíssimos Savoia-Marchetti s.55 de Ítalo Balbo e Frank Courtney com o seu Dornier Do J Wal, para não deixar de mencionar máquinas fantásticas como o DOX, o Zephir da Deutsche Luftansa do III Reich e claro está, o Graf Zepellin.
Incontornável será a referência ao primeiro aeroporto nas ilhas, nomeadamente o campo da Achada na ilha Terceira, e a ascensão aos céus açorianos da primeira aeronave terrestre por cá, o Avro 504 K, baptizado Açor, com outro pioneiro da aviação açoriana aos comandos, o tenente Frederico Coelho de Melo, natural dos Altares, isto a 4 de Outubro de 1930.
Ainda mais importante do que a passagem destes vultos e máquinas dos pioneiros da aviação, uns com mais sucesso, outros com menos, seria o resultado final de uma série de ilações retiradas destes voos e que permitiriam o estabelecimento das primeiras rotas comerciais transoceânicas, como por exemplo para a Pan American Airways e os seus Yankee Clipper durante a II Guerra Mundial, assim como para a Air France e Imperial Airways.
Desta forma torna-se relativamente simples perceber que a história dos pioneiros da aviação nos Açores ainda tem muitas páginas para contar. Por exemplo, será de realçar a tentativa fracassada de estabelecer um recorde português da travessia Lisboa-Funchal-Ponta Delgada a bordo de um Fokker T. III W, o Infante de Sagres, em Março de 1926, lograda a poucas milhas de Ponta Delgada.
Os Fokkers T III W haviam vindo para Portugal no âmbito de um ousado projecto para realizar uma viagem aérea à volta do mundo no sentido inverso ao percurso de Fernão Magalhães (isto já no rescaldo do sucesso da travessia aérea do Atlântico Sul em 1922). Contudo, a sina a que ficariam associados começaria logo a 1 de Novembro de 1924: Sacadura Cabral desapareceria no mar do norte, apenas se encontrando um flutuador da sua robusta aeronave. O Infante de Sagres, teria sina similar, embora menos funesta. Ao levantar de Lisboa a 20 de Abril de 1926, teve o primeiro contratempo perto de um enevoado Funchal, acabando por amarrar em virtude de sobreaquecimento. Os seus dois pilotos da Aeronáutica Naval seriam encontrados no dia a seguir, por um barco de pesca, a 13 km do destino. Uma vez rectificada a avaria e ultrapassadas as burocracias, ascenderiam novamente aos céus a 9 de Maio, procurando retomar a tentativa de recorde, cujo vértice seguinte seria Ponta Delgada. Acabariam por novamente serem forçados a amarar em Vila Franca do Campo, por falta de combustível. Uma vez em Ponta Delgada, com a aeronave assente no varadouro do Corpo Santo (ao lado do forte de São Brás), os pilotos acabariam por regressar a Lisboa por ordem superior de barco, bem como o avião, às peças.
Outro episódio digno de referência será a estadia em Ponta Delgada de uma esquadrilha francesa de Breguet-bisert pertencentes à 1ª Esquadra Ligeira do Atlântico. Os quatro trimotores de reconhecimento aéreo franceses amararam ao porto da cidade micaelense às 14 horas de 19 de Maio de 1938, ou seja há 72 anos. A amaragem, à boa maneira do elevado gosto da época não seria feita de forma regular. Várias manobras seriam feitas para encanto da população e o último amararia mesmo em sentido contrário (Leste-Oeste), numa manobra arriscada no interior da baia do porto micaelense.
Faziam parte de uma esquadra francesa em manobras no Atlântico (e aproveitariam a ilha para concretizar algumas, junto à Bretanha), e pelos registos da época tinham dez homens de tripulação, pesavam dezoito toneladas, recebendo cada 2. 000 litros de combustível da firma micaelense J. H. Ornelas, ao tempo agente da Shell para os Açores.
A esquadra chegaria no dia seguinte, salvando terra a tiros de artilharia logo pela manhã e que seriam correspondidos pelo forte de São Brás, ainda hoje em dia responsável por esta centenária forma de saudação a embarcações estrangeiras. Ao contrário das aeronaves, que tinham vindo de Cherburgo, via Best e Lisboa, as onze unidades de superfície da Marinha de Guerra francesa haviam feito um desvio, passando pelo Funchal.
Entre a calorosa recepção, destacam-se os fervorosos jantares de ambas as partes, os passeios às Sete Cidades e Furnas com as autoridades civis e militares locais, e claro está, os empolgantes jogos de futebol entre os locais e os estrangeiros. Contudo, a visita desta esquadrilha poderá estar associada aos estudos pioneiros da grande aviação transoceânica, uma vez que por detrás destas aeronaves (que conheceriam diferentes versões) encontrava-se o fundador da Air France. Uma vez em Ponta Delgada, sairia uma aeronave rumo à Horta e uma segunda a Angra do Heroísmo.
Nesse mesmo ano, nova visita seria feita a Ponta Delgada, mas por uma divisão da Marinha de Guerra portuguesa, comandada por um notável filho da terra, o Capitão de Mar e Guerra Alfredo Botelho de Sousa, a comandar o Bartolomeu Dias (navio – chefe) e os destroyers Douro, Tejo, Lima e Dão, os submarinos Espadarte e Golfinho, e o aviso João de Lisboa.
Nesta fase, Portugal tinha duas embarcações com sistemas embrionários, típicos nos estudos desenvolvidos desde o fim da Grande Guerra, e que haveria de desembocar no desenvolvimento dos porta-aviões. São chamados de sistemas de catapulta, que catapultavam aviões a bordo das embarcações com vista a uma maior operacionalidade e diversidade nas operações. Uma destas embarcações era o Bartolomeu Dias, que tinha a bordo um Hawker Osprey III, rapidamente posto a sobrevoar Ponta Delgada.
Estes hidroaviões, integrados na Armada Naval em 1935 foram os únicos aviões embarcados da Armada portuguesa. Seriam rapidamente substituídos a bordo por canhões anti – aéreos e destacados para Macau onde serviram até 1941. As fotos aqui apresentadas poderão ser únicas no que concerne à sua actividade, uma vez que existem sites oficiais que negam a sua existência a bordo do Afonso de Albuquerque e do Bartolomeu Dias.
A sua presença a bordo é plenamente registada pelo Correio dos Açores, para além das suas ousadas manobras sobre a cidade e as suas duas descidas na Lagoa das Sete Cidades, uma das vezes, em ambas, para delírio de locais que ocorreram de barco a cumprimentar os pilotos navais.
Seriam o culminar de pouco mais de duas décadas de pioneirismo, aventura (com ou sem rádio, peça fulcral caso a missão corresse mal) e euforia de homens e máquinas. São igualmente duas décadas de autêntica “revolução” industrial na produção de aeronaves: de madeira e tela, passara-se a aviões com estrutura e revestidos a metal; de cabines descobertas a cobertas; de velocidades e raios de alcance autonomias na ordem dos 145 Km/h e 402 Km do Avro 504 K, para os 602 Km e 760 Km do Supermarine Spitfire Mk Vb ao inicio da II Guerra Mundial (neste caso um caça. Num bombardeiro famoso como o Consolidated B-24 Libereator, o raio de alcance atingia os 4.585 Km).
A expressão máxima da aviação nos Açores durante a II Guerra Mundial seria a criação de dois aeródromos em São Miguel e Terceira, a que se seguiria um em Santa Maria ainda antes do final da hecatombe. Ainda tutelados pela aviação do Exército Português, em articulação com as forças estrangeiras (nos dois primeiros casos), teriam uma unidade equivalente mas da Aeronáutica Naval no Centro de Aviação Naval de Ponta Delgada, sediado no desaparecido hangar da marinha junto ao forte de São Brás. À semelhança da guerra anterior, e ao espaço entre ambas, o antigo areal que outrora fora o porto da cidade, voltava a receber aeronaves com flutuadores, desta vez da Marinha de Guerra portuguesa.
Deste modo, os açorianos (em especial destas duas ilhas) rapidamente se habituaram aos voos dos aviões Gladiator do Exército, mais tarde reforçados pelos Junkers 52, e os hidroaviões da Marinha, os Grumman G-21-B e G-44 (com rodas incorporadas) e Avros 626, responsáveis pelo primeiro levantamento aerofotográfico das ilhas.
Contudo, a segurança e operacionalidade por eles representada não seriam isenta de riscos: o Exército perderia pelo menos dois pilotos e a Marinha um, entre duas aeronaves destruídas pelo rebelde mar açoriano.
Novamente se constata o papel importantíssimo das ilhas na História das comunicações do Atlântico Norte. Futuros trabalhos que irei desenvolver, trarão mais motivos para comprová-lo (neste e em outros capítulos), uma vez que existe sem dúvida uma historiografia açoriana, razão mais do que óbvia para os nossos alunos terem uma disciplina intitulada História dos Açores. Quando tanto se fala que um dos pilares futuros da economia açoriana reside no Turismo: então não temos que nos conhecer a nós próprios, para nos valorizarmos e nos destacarmos pela diferença? Como o iremos fazer, se os nossos alunos estudam a basílica de São Pedro em Roma (e bem) mas não a igreja de São Pedro em Ponta Delgada? Já Miguel Torga dizia: “Temos que conhecer a nossa terra, mas conhece-la por dentro...”."
CORREIO DOS AÇORES
04 Abril 2010 [Opinião]
Autor: Sérgio Rezendes
MM
29 de setembro de 2010
AINDA SOBRE O CAPITÃO FREDERICO DE MELO
No âmbito do 56º Aniversário da Força Aérea - 1 de Julho de 2008, na Ilha Terceira o General CEMFA, iniciava assim o seu discurso:
“Senhor Ministro da Defesa Nacional
Em meu nome pessoal, e em nome dos homens e mulheres que tenho a honra de comandar, manifesto o nosso reconhecimento pela disponibilidade de Vossa Excelência para presidir a esta cerimónia militar, ponto alto da celebração do 56º Aniversário da nossa Força Aérea, e de homenagem à Região e à população dos Açores, que tão fraternamente nos tem acolhido ao longo de mais de 70 anos.
Senhor Representante da República para a Região Autónoma dos Açores
Senhor Vice-Presidente do Governo Regional dos Açores
Senhora Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
Senhores Deputados da Assembleia da República Eleitos pelo Círculo dos Açores
Senhores Secretários Regionais do Governo Regional dos Açores
Senhor Presidente da Junta de Freguesia de S. Bento
Excelência Reverendíssima o Bispo de Angra
Senhor Reitor da Universidade dos Açores
Senhor Vice-Almirante Comandante Operacional dos Açores
Senhores Comandantes Militares nos Açores
Ilustres Autoridades da Região Autónoma dos Açores
Distintos convidados da Região Autónoma dos Açores
Açorianos
Há cerca de 78 anos, um avião “Avro”, monomotor biplano, pilotado pelo Capitão Frederico Coelho de Melo, efectuou a sua descolagem assinalando a inauguração oficial de um aeródromo da Aviação Militar Portuguesa.
O aeródromo em questão situava-se na zona planáltica designada por Achada, a aeronave foi baptizada de “Açor” e o piloto era natural da freguesia de Altares, aqui na Ilha Terceira.
Como legítimos herdeiros das tradições, espírito e ideais deste e de todos os outros pioneiros da aviação em Portugal, ao celebrarmos hoje o 56º Aniversário da Força Aérea, como Ramo independente das Forças Armadas, considerámos que era tempo de o fazermos nesta terra, tão intensamente associada às operações aéreas, o que ocorre pela primeira vez na nossa vida em comum.
É neste contexto que manifesto a Vossas Excelências o meu sincero agradecimento, por estarem connosco neste dia festivo, mas sobretudo pelo acolhimento que sempre nos concederam e pelo apoio prestado na realização das diversas actividades associadas a esta celebração, que constitui, também, um excelente exercício da Força Aérea projectável porque sempre pugnamos.
…"
MM
26 de setembro de 2010
ISTO É QUE VAI UMA CRISE!
Também se pode brincar com coisas sérias e por aí podemos ser mais incisivos. Mete dó o que se vem passando nestes dias. Estamos tesos ou até mesmo tesos ao cubo, e os nossos políticos discutem, discutem e não chegam a lado nenhum. Se os vencimentos deles fossem os primeiros a ser truncados, ai não, se eles já se tinham entendido. Por isso vou ser mauzinho e atreve-mo a sugerir um alto corte na despesa do Estado; prescindir dos trabalhos parlamentares da Assembleia da República nos primeiros seis meses de 2011, e proceder do mesmo modo que atuam as empresas que suspendem a laboração: não há salários para ninguém, dado que da discussão da crise aumentam a mesma crise, empobrecendo ainda mais o país e desacreditam-no e aumentam o descrédito lá fora. Não se esqueçam de que os cortes deviam seguir a lógica das abonações - DE CIMA PARA BAIXO, e doa a quem doer!
Lá dizia a outra: "Isto é que vai uma crise"
MM
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